quinta-feira, 7 de julho de 2011

Encontro de Editores de Vários Países na Flip quer Tortalecer Presença de Livros Brasileiros no Exterior

A mais charmosa porta de entrada de autores estrangeiros no Brasil tem tudo para ser também um trampolim para o movimento contrário. Em sua 9ª edição, que se inicia no dia 06 jul. 2011  e vai até domingo, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) receberá atividades e debates sobre como internacionalizar a literatura brasileira, uma preocupação de décadas que sempre enfrentou a barreira do idioma e a falta de políticas públicas. Por isso, além de um encontro entre editores de vários países promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a Flip será palco para o lançamento de um programa da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) que dará R$ 2,7 milhões para traduções de obras brasileiras para outras línguas. São ações que ocorrem num momento em que o Brasil está prestes a ser homenageado em dois grandes eventos europeus, a Europalia 2011 e a Feira de Frankfurt 2013, e se tornará uma grande vitrine para nomes já consagrados, abrindo portas também para os menos conhecidos.
O Programa de Apoio à Tradução e Publicação de Autores Brasileiros será divulgado pela FBN nesta sexta-feira, às 19h30m, na Casa de Cultura de Paraty, com a presença de uma representante de Frankfurt. O governo já tinha um programa como esse, mas os valores eram bem mais baixos: no segundo semestre de 2010, por exemplo, foram concedidas 46 bolsas de tradução para editoras nacionais e estrangeiras com valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil. Agora, são R$ 2,7 milhões para obras de literatura e de humanidades, num edital cujos vencedores serão publicados até agosto de 2013, dois meses antes de Frankfurt.
- Minha experiência na Inglaterra é que poucos livros são traduzidos porque já há uma oferta alta de títulos em inglês e porque a tradução é cara - afirma Liz Calder, criadora da Flip e ex-editora da casa inglesa Bloomsbury. - A Alemanha, por exemplo, criou um programa para incentivar os editores ingleses a traduzir obras em alemão. Com iniciativas como essa da Biblioteca Nacional e com o crescimento do interesse no Brasil, acredito que mais traduções vão surgir.
O encontro marcado pela CBL na Flip - que este ano homenageia Oswald de Andrade e reúne 34 autores brasileiros e estrangeiros - pretende também discutir as perspectivas para a literatura brasileira no exterior. Criado há dois anos como parte de uma estratégia de promoção do mercado nacional, o programa Brazilian Publishers realiza esta semana o Projeto Imagem, que traz jornalistas e editores estrangeiros para encontros e debates com autores, agentes e editores nacionais. A lista inclui os editores americanos Errol McDonald, da Pantheon Books (subsidiária da Random House, uma das maiores casas dos EUA), e Edwin Frank, do "New York Review of Books", além de repórteres especializados da Europa e América Latina. No Brasil desde segunda-feira, os convidados participaram de reuniões em São Paulo e, amanhã, farão dois painéis na Casa de Cultura de Paraty, de 19h a 22h: o primeiro sobre a presença das literaturas de língua portuguesa no exterior e o segundo sobre as oportunidades e barreiras para a tradução literária no mundo.
Uma iniciativa da CBL em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex-Brasil), o Brazilian Publishers já havia feito uma edição do Projeto Imagem em 2009, na Bienal do Livro do Rio. Uma nova edição está planejada para este semestre, para bibliotecários americanos. Desde sua criação, o programa tem patrocinado iniciativas para promover as editoras nacionais no exterior, como serviços de consultoria e organização de estandes brasileiros nas maiores feiras literárias do mundo.
Segundo a gerente do programa, Dolores Manzano, foi realizado um mapeamento do mercado internacional que identificou áreas estratégicas para a literatura brasileira: oito países que ela define como "mercados principais" (EUA, México, Chile, Argentina, França, Alemanha, Coreia do Sul e Japão) e dois "secundários" (Angola e Moçambique).
- Para promover a literatura brasileira nesses mercados, o Brasil precisa investir em programas de tradução consistentes, como existem em vários países do mundo. A presença como país convidado na Feira de Frankfurt de 2013 vai colocar o Brasil em evidência no mercado editorial internacional, e precisamos nos organizar para aproveitar essa grande oportunidade - diz Dolores.
Segundo a agente literária Lucia Riff, que também participará do debate na Flip, os projetos públicos de tradução muitas vezes são decisivos para uma publicação no exterior.
- Uma das primeiras perguntas nas reuniões com os editores sempre é se o país tem programa de tradução. A ideia não é que o governo subsidie a publicação de livros no exterior, mas temos que levar em conta que a boa tradução é cara e que há menos especialistas em português do que em outras línguas - afirma ela. - Nessa preparação para a Feira de Frankfurt, devemos nos preocupar mais com qualidade do que com quantidade. Que não seja só oba-oba, e sim o ponto de partida para uma nova fase da divulgação da literatura brasileira no exterior.
Além de Frankfurt, o Brasil será tema da Europalia, o maior festival multicultural da Europa, na Bélgica. O evento começa em 4 de outubro e tem reservado R$ 1 milhão para projetos de literatura e conferências. As ações incluem o lançamento de duas edições bilíngues de poemas brasileiros; conferências de autores mais conhecidos lá fora como Milton Hatoum, João Ubaldo Ribeiro (que está na Flip) e Bernardo Carvalho, e de outros ainda com um território a conquistar, como Nuno Ramos, Carlito Azevedo e Marília Garcia; e exposições das obras de nomes como Clarice Lispector, Augusto de Campos e Lourenço Mutarelli.
- Pensamos alguns eixos da literatura brasileira para a Europalia - afirma Flora Sussekind, curadora do evento no campo literário. - O problema é com quem você lida para montar as conferências. O grau de conhecimento sobre autores brasileiros é muito baixo. Eu apresentava os autores com quem gostaríamos de trabalhar e precisava explicar a importância de cada um. Em geral, as reações deles era de que não interessaria ou não haveria público.
Para Flora, o problema ocorre não apenas pela falta de versões para outras línguas, mas também pela ausência de uma política para distribuição dos livros no exterior.
- Não adianta a tradução ser custeada e ela sair por alguma editora à margem que ninguém vai ler - diz ela. - Além disso, seria importante que o governo financiasse cadeiras de cultura brasileira em universidades estrangeiras, como Portugal já fez. Tudo isso ajudaria a se pensar o Brasil pelo mundo com menos estereótipos.

Fonte: Agência O Globo

Disponível em: <http://br.noticias.yahoo.com/encontro-editores-v%c3%a1rios-pa%c3%adses-flip-quer-fortalecer-presen%c3%a7a-131358477.html>. Acesso em: 06 jul. 2011

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