segunda-feira, 11 de julho de 2011

Arte, Sintomas e Psicanálise: mostra reúne em São Paulo anotações e uma centena de obras inquietantes da artista plástica Louise Bourgeois

Maman, 1999, escultura inspirada na figura materna.
Restos de um corpo adulto devorado jazem sobre uma superfície que é, ao mesmo tempo, cama e mesa de jantar. Na instalação A destruição do pai, de 1974, a artista plástica franco-americana Louise Bourgeois recorre à ambiguidade que remete ao domínio da figura paterna e aos apetites – do estômago e do sexo. “Um dia as crianças se irritaram com a onipotência, avançaram sobre ele, esquartejaram-no e o comeram; assim foi liquidado, da mesma forma que vinha liquidando seus filhos”, escreveu a artista em suas anotações. Mais de 100 obras suas – esculturas, instalações e desenhos – estão expostas na mostra Louise Bourgeois – O retorno do desejo proibido, em cartaz em São Paulo.
Leitora das obras de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Melanie Klein, a artista, morta em 2010 aos 98 anos, deixou inúmeros escritos sobre sua relação com a psicanálise, nos quais associa suas produções a registros de seu passado. A escultura Maman, de 1999, por exemplo – um aracnídeo com patas pontiagudas e abdômen carregado de ovos – tem origem, conforme escreveu, nos sentimentos por sua mãe, definida por ela mesma como “limpa e útil como uma aranha”. Sua família vivia do comércio de tapeçaria. “Tecer, cuidar e proteger eram associações com a figura materna; a agulha, por possibilitar a costura e a união, simboliza o desejo de se conectar com pessoas importantes em sua vida”, afirma o curador da mostra, o canadense Philip Larratt-Smith, no ensaio O retorno do reprimido, no qual aborda a escultura como solução de conflitos (ou seja, um sintoma) na obra da artista. Há reproduções gigantescas de Maman em galerias de vários lugares do mundo, como no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo

Louise também explorou significados simbólicos do falo. Na instalação Arco da histeria, de 1993, um corpo de homem preso ao teto pelos genitais tenta inutilmente tocar os próprios pés. Na obra Janus Fleuri, de 1968, um membro de bronze -pende de um arame, repulsivo e -descontextualizado – como alguns sentimentos e desejos. Interpretada como “uma não resolução da fixação edipiana pelo pai” por Larratt-Smith, a desconstrução do pênis também remete ao seu ativismo no movimento feminista durante os anos 1960 e 1970 e a sentimentos despertados por atuar em um cenário artístico predominantemente masculino.

O catálogo da exposição traz trechos do ensaio de Larratt-Smith e dos textos deixados pela artista, inéditos em português. “O trabalho da Louise Bourgeois é de orientação psicanalítica, mais que o de qualquer outro artista do século 20; arte e psicanálise estão completamente fundidas na sua produção”, diz o curador da mostra.

Fonte: Revista Mente e Cérebro


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