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terça-feira, 15 de julho de 2014

Vingança nas redes sociais

O mundo moderno trouxe a necessidade de expor os relacionamentos como objetos de consumo, o que acaba trazendo, como grave consequência, grandes frustrações e inúmeros desejos interrompidos

Relações que são expostas como “objeto” de consumo geram uma série de frustrações e desejos interrompidos, resultando em uma mudança de subjetividade, criando um novo sujeito com diferente forma de vivenciar seus sentimentos, atitudes, pulsões e emoções. Segundo Freud, o conceito de pulsão aparece como limite entre o psíquico e o somático, Portanto, a pulsão não indica a existência de um território, com fronteiras seguras e muito bem estabelecidas, pois se dissemina e se desdobra entre o somático e o psíquico, estabelecendo entre ambos uma posição de intercessão.
Contudo, dominar essas intensidades implica em inscrevê-las em representantes psíquicos, em que o objetivo finalizador seria a realização pulsional. Esse destino da pulsão seria o que Freud denominou de conjunto de defesas, que o aparelho psíquico constrói para lidar, devidamente, com o impulso perturbador, que provoca a exigência de trabalho ao psíquico por sua ligação corporal. Desta forma, a construção da montagem e do circuito pulsional possibilita que o recalque e a sublimação desenhem, no inconsciente, uma possibilidade da libido ser a entrada do prazer.
Vivemos em meio a smartphones, iphones e tablets. O tempo se torna virtual e a vida se concentra registrada nas redes sociais. Os jovens tentam elaborar a sexualidade como algo primordial, em que princípios, leis e emoções ficam um pouco fora de moda. nem todos conseguem desvincular o ato sexual dos sentimentos. temos que lembrar que uma relação implica duas pessoas, em que se trocam e planejam vivências com similaridade e cumplicidade. intimidade não se resume em, simplesmente, tirar a roupa e ir para a cama, mas saber desnudar, aos poucos, as camadas internas. a vida afetiva gera mergulho profundo nas entranhas, no desconhecido. amar é revisitar cavernas, poços, grutas e descobrir os mistérios infindáveis da alma humana.

         shutterstock

Como resistir à efemeridade das relações e à banalidade dos sentimentos? como expressar o descontentamento do mundo, quando, na verdade, tudo se transforma em espetáculo? uma transa vira notícia no facebook, uma viagem e o carro novo precisam ser postados, para que o outro enxergue e compartilhe da beleza, da abundância e do sucesso? como enxergar a violência, o rolezinho e a criminalidade, que se sobrepõem a tudo e a todos, inclusive à justiça? Observamos a obsessão em priorizar o consumo, a arrogância imposta pelo valor monetário, que define a posição social, e a inserção no grupo de uma sociedade anômica, desigual e injusta.
Qual seria o lugar que nossos filhos poderiam ocupar? aquele de bem-sucedido, de posses, estúpido e incólume? Os monstrinhos de hoje seriam os bandidos de amanhã? Ou será que julgamos, apenas, aqueles que são os excluídos, que nunca tiveram oportunidade, cresceram humilhados, sendo banidos pelos monstrinhos que transitam de carro de luxo, importados, mas não possuem a menor compaixão pelo sofrimento do outro?
TUDO VIRA NOTÍCIA NO FACEBOOK: UMA VIAGEM E O CARRO NOVO PRECISAM SER POSTADOS, PARA QUE O OUTRO COMPARTILHE DA ABUNDÂNCIA E DO SUCESSO? COMO ENXERGAR A VIOLÊNCIA E O ROLEZINHO, QUE SE SOBREPÕEM A TUDO E A TODOS, INCLUSIVE À JUSTIÇA?
A forma como o adolescente ama, questiona e se posiciona remete ao que herdaram dos pais. noções de ética, cidadania, caráter e cumplicidade. tempo, palavra desconhecida na arte de educar, compartilhar, associar e permutar. como educá-los priorizando família, regras e posturas, valores considerados ultrapassados e sem necessidade? relações sem proximidade, sem viços, são frouxas e expõem a descrença de sentimentos, que, na verdade, são muito valorizados: caráter e família.
Nas redes sociais, a comunicação é mecânica, na qual um espaço coletivo e desconhecido media várias relações sem envolvimento e afetividade. Hoje, a internet é utilizada como um recurso enorme para troca de opiniões no mundo, mas a obsessão em registrar particularidades em rede atesta a superficialidade de sentimentos.
Esse mundo virtual remete aos tempos do império romano, quando a plebe, se divertia torcendo pelos musculosos gladiadores e hoje os adolescentes se divertem, digladiando uns aos outros em plena arena virtual.
A necessidade de nos sentirmos superiores expõe a verdadeira frustração de não sermos o que gostaríamos de ser, ou seja, o eu idealizado (quem eu gostaria de ser/ imaginativo) se confronta com o eu real (aquele que eu sou/ realidade). ser amado, ser aceito é um mecanismo de defesa, uma verdadeira fantasia, que ameniza a sensação de abandono, tornando-se, então, a formação de uma não consciência de si, provocando incômodos e uma tentativa de suplantá-los.

A violência e a vingança são apelos ao limite, inscrevem-se como uma tentativa de reparar o sentimento de ter sido lesado, advindos de um grito irreal de socorro pela irrelevância da vida, quando, na verdade, em seu conceito interior, tudo pode ser permitido. indivíduos são formados pela busca do prazer eterno, enraizados no conceito de uma pulsão avassaladora, que os projeta na realização de seus desejos (neurose) e, em seu extremo, nas ordens que ignoram o caráter (psicopatologia). esse diálogo interior se expressa por reações combinatórias com o mecanismo de defesa inconsciente, gerando a satisfação de seu desejo sarcástico e hostil perante o outro sujeito. assim se inscreve o inconsciente... que na maioria dos casos, inconscientemente, mentindo para si mesmo, insiste e persiste.

            
Fonte: Psiquê

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