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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Psicopositiva: O desgaste da bondade

ShuterstockHouve um tempo em que ser bom era valor. Vivíamos em um mundo diferente. Um mundo de reputações, de honras, de palavra. Não era necessário registrar o que dizíamos, porque a escrita não tinha mais valor do que a palavra.
Nesse mundo havia também a justiça que, ao lado da bondade, resumia os adjetivos máximos com que um homem poderia ser definido.
Esse mundo se faz distante. E embora a bondade felizmente sobreviva, a valorização dessa característica por parte da sociedade parece ter ficado para trás.
Derivada da virtude da humanidade, a bondade é uma das 24 chamadas forças pessoais, ou seja, uma das qualidades humanas que, quando característica de um indivíduo, corresponderia àquilo que de melhor ele teria a oferecer ao mundo.
Motivo de honra, diriam os antigos. De constrangimento, dizem hoje aqueles que a possuem. Em que momento começamos a desvalorizar a bondade? Em meu consultório costumo submeter meus clientes a um inventário para identificação de suas forças pessoais. Isso porque tenho plena convicção de que tais forças se configuram nos únicos recursos de que dispomos para o enfrentamento e resolução dos problemas com os quais nos deparamos na vida. Quando, dentre suas forças, o cliente escuta possuir a liderança, por exemplo, vejo nele se abrir um largo sorriso de orgulho. Contudo, em praticamente todas as vezes que anunciei a bondade como uma força, o que vi foram expressões confusas, olhares constrangidos, decepcionados e descrentes que, não raro, acompanhavam perguntas do tipo: "E o que eu faço com isso?". "Muda o mundo" - seria a melhor resposta que eu poderia dar, caso o cliente fosse capaz de reconhecer a bondade como força.
Mas o problema vai além disso. Na sociedade que construímos, a bondade é uma fraqueza. Uma característica incompatível com o estúpido conceito de sucesso que tão obstinadamente perseguimos. Um conceito de sucesso sobre o qual tenho muitos questionamentos, porém que, desta vez, prefiro abordar assim, em todo o equívoco da cultura popular.

SER BOM JÁ FOI UM VALOR. MOTIVO DE HONRA, DIRIAM OS ANTIGOS. DE CONSTRANGIMENTO, DIZEM HOJE AQUELES QUE A POSSUEM. EM QUE MOMENTO COMEÇAMOS A DESVALORIZAR A BONDADE?

Somos ensinados a acreditar que pessoas boas não ficam ricas. Que bondade e lucratividade são excludentes. Que é mais fácil "um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico adentrar o reino dos céus", e por aí vai. Daí a conclusão de que a bondade jamais poderia ser um recurso para a conquista desse sucesso que é visto, antes de tudo, como sucesso financeiro.
Além disso há também o equívoco de acreditarem na possibilidade de uma bondade em excesso. "O problema é que eu sou muito bonzinho." Na minha prática clínica, escutei essa frase um sem número de vezes. E em todas elas respondi: "Seu problema é a falta de assertividade e não o excesso de bondade".
Sempre disse que neste mundo os bons são a maioria. Não seria absurdo acreditarmos ser essa uma "fraqueza" da nossa sociedade?

Shuterstock
Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área. graziano@psicologiapositiva.com.br

Fonte: Revista Psique
Disponível em: <http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/114/artigo355840-1.asp>. Acesso em: 06 jul. 2015

Maioria quer proibição do álcool em pó

Álcool em pó
O álcool em pó foi legalizado nos Estados Unidos no início deste ano, mas as contestações já começaram e alguns estados começam a proibir a venda do produto.
Pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA) conduziram então uma pesquisa nacional para verificar como os adultos veem a questão, uma vez que a expectativa é que a droga lícita atinja sobretudo a população mais jovem.
"Os fabricantes do produto alegam que o álcool em pó dará mais comodidade para as pessoas que gostam de estar ao ar livre e querem carregar menos peso ao viajar," relata o médico Matthew Davis, coordenador da pesquisa.
Reação ao álcool em pó
Álcool em pó
Pouca gente já ouviu falar, mas o álcool em pó está prestes a chegar ao mercado. [Imagem: Universidade de Michigan]
Os resultados mostram que 60% dos adultos ouvidos são a favor da proibição total do álcool em pó, enquanto uma parcela ainda maior, 84%, quer a proibição das vendas on-line do produto.
Além disso, 85% dos adultos concordam que o marketing para o álcool em pó deve ser restrito nas redes sociais, que alcançam mais os jovens.
"Sabendo que vários estados estão considerando uma legislação sobre o álcool em pó, nossa pesquisa avaliou a opinião do público sobre este novo produto. A maioria dos adultos concorda que o álcool em pó pode significar problemas para os jovens," resumiu Davis.
Contudo, apenas um terço dos adultos ouvidos na pesquisa já havia ouvido falar sobre o álcool em pó, o que exigiu que todos os participantes recebessem informações - prós e contras - sobre o produto antes de responderem as perguntas.
Fonte: Diário da Saúde

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Grupoterapia contra depressão

Participar de atividades pode ser decisivo para evitar ou amenizar sintomas depressivos


É provável que você se lembre de algumas manhãs em que teve dificuldade para sair da cama. E não só porque estava com sono ou frio, mas talvez porque levantar-se significava entrar em contato com lembranças desagradáveis, como da nota baixa na prova, da festa para qual não recebeu convite, do trabalho que não conseguiu ou de algum ressentimento guardado. Para quem sofre de depressão, todos os dias podem parecer cansativos demais ou até assustadores – e sair do conforto dos lençóis, uma espécie de pesadelo. Nesses momentos, as coisas antes prazerosas deixam de ter o mesmo sabor. Falta, por exemplo, vontade de se exercitar, ler ou mesmo se encontrar com uma pessoa próxima – ainda que situações possam ajudar a aliviar o sofrimento.
A depressão é hoje a principal causa de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Cerca de 20% das pessoas passam por pelo menos um episódio durante a vida. O risco é ainda maior para mulheres, jovens adultos e aqueles que vivem em países desenvolvimento e principalmente em comunidades carentes. Com consequências sociais e econômicas, o transtorno não afeta apenas o paciente, mas também os que estão ao redor.
E não é fácil tratá-lo. Medicamentos antidepressivos podem provocar efeitos colaterais como sonolência, problemas sexuais e ganho de peso, o que leva muitos pacientes a interromper o uso. Quase um terço não responde ao tratamento inicial. Um em cada cinco que sentem alívio dos sintomas volta a apresentar o quadro depressivo mais tarde. Em média, os pacientes têm quatro recaídas ao longo da vida.
Por todas essas razões, cada vez mais profissionais da área da saúde reconhecem que em muitos casos o simples uso da medicação não é o caminho mais adequado. A psicoterapia tem papel fundamental no tratamento, mas ainda assim parece necessário desenvolver novas estratégias terapêuticas. Várias evidências sugerem que uma abordagem simples e de baixo custo pode favorecer muito o tratamento: fazer parte de um ou mais grupos pode tanto prevenir como curar a depressão.
Os autores:  Tegan Cruwys é doutora em psicologia clínica. S. Alexander Haslam é doutor em psicologia social. Genevieve A. Dingle é doutora em psicologia clínica. Os três são professores da Universidade de Queensland, na Austrália.

Fonte: Scientific American Mente Cérebro

Psicopedagogia: Perdas e ganhos

A possibilidade de optar e a probabilidade de perder, são um dos aprendizados cruciais e mais difíceis na vida. Os pais devem oferecer aos filhos suporte e acolhimento afetivo, mas lembrar que tal processo é uma forma de aprendizado básico e individualizado


Ainda que seja um desejo ancestral de toda mãe evitar que seus filhos sofram, tanto a frustração quanto o perder fazem parte da maturação emocional e cognitiva do Ser Humano. Apenas nesse processo é que se aprende, paulatinamente, a superar os danos causados por rompimentos de maior ou menor magnitude, reversíveis ou não, que ocorrem com todas as pessoas: mas essa é uma das lições mais difíceis em qualquer idade e que levamos a vida toda tentando assimilar e aceitar.
É comum vermos os pais se esforçando para proteger seus filhos e, às vezes, até com grande exagero, pois muitas são as pessoas adultas que têm dificuldades acentuadas de lidar com as próprias perdas. E como assistir o sofrimento dos que tanto amamos é imensamente doloroso, exemplos desse empenho são frequentemente vistos no dia a dia.
Os aprendizados que assimilamos, ao longo de nosso crescimento, sejam de que ordem forem, são de fundamental importância, não apenas para promover a aquisição de novos conhecimentos e comportamentos, mas também para nos preparar física, mental, emocional e socialmente, para nos tornarmos autônomos e capazes de vencer os revezes da vida com maior dignidade e equilíbrio, sem perder a autoestima e sem precisar adentrar ao mundo das compensações fáceis e, terrivelmente, perigosas na adolescência, principalmente.
Viver e crescer trazem, necessariamente, novos aprendizados: hoje, ninguém é igual ao que foi ontem ou será amanhã; perdemos pedaços de nós nas experiências diárias e vamos nos transformando para permanecermos fiéis a nós mesmos. Afinal, nosso cérebro não para nunca, e nas trocas com o ambiente é que aprendemos e mudamos. Seja perdendo ou ganhando, sempre estamos em um ciclo vital de transformação.
Mas é no câmbio de informações, com o mundo ao nosso redor, por meio da interação com as outras pessoas e situações mais ou menos favoráveis, enfrentando desafios e dificuldades de diferentes ordens, que aprendemos as duas lições mais singularmente difíceis: optar e perder. Fazer escolhas tem um significado especial para nós, humanos, pois somos dotados de raciocínio e consciência e, desde cedo, nos frustramos por perceber que de uma opção sempre decorrem inevitáveis danos.
Aprendemos, desde crianças, a pensar em termos de pequenas (ou grandes) compensações às frustrações, que, se não nos dão uma satisfação absoluta, ao menos nos permitem lidar, com menor sofrimento, com as situações adversas do dia a dia.

NEM SEMPRE A MORTE, EMBORA IRREVERSÍVEL, CONSTITUI A MAIOR DE TODAS AS DORES. PERDER PODE TER SIGNIFICADOS MÚLTIPLOS E DIVERSOS PARA AS PESSOAS

Quando falamos em perdas, logo nos vem à mente o luto. Mas nem sempre a morte, embora irreversível, constitui a maior de todas as dores. Perder pode ter significados múltiplos e diversos para as pessoas, conforme as situações vividas e as diferentes idades, já que as conotações culturais são, também, variadas.
As perdas sofridas durante a vida, especialmente ocorridas na infância, são, em geral, muito pontuais e, embora menos frequentes do que as que nos assolam mais tarde, são, de modo geral, abrangentes e marcam a pessoa por toda a vida. Ou seja, embora boa parte das perdas sofridas, no período inicial da vida, seja praticamente superável, a dor sentida nem sempre é esquecida ou superada facilmente, pois trata-se de uma época de elaboração, de crescimento pessoal e, desde a destruição de um brinquedo, a perda de um lugar privilegiado na família, assim como o fim do convívio com amiguinhos queridos, com um dos pais, ou um bicho de estimação, que morre, a mudança de escola, a repetência do ano letivo, tudo isso é vivenciado pelas crianças como algo novo que pode ser assustador.
Entretanto, se não houver um adulto com quem se vinculem bem e que lhes garanta segurança afetiva, mesmo as frustrações às pequenas expectativas das crianças, geralmente pouco embasadas na realidade, podem causar danos, por vezes irreparáveis. É claro que, se de um lado podemos procurar evitar prejuízos desnecessários, de outro, não os podemos suprimir totalmente, pois fazem parte do amadurecimento e fortalecimento pessoal para futuros e inevitáveis rompimentos, entre o desejo e a realidade da vida, e que sempre ocorrerão em maior ou menor número e intensidade.
O que os pequenos ganham com as perdas é uma lição para o futuro e esse aprendizado pode ocorrer na realidade diária, ou mesmo por meio de jogos e brincadeiras. Saber escolher, optar, perder e até ganhar constituem uma série de processos lentos de aprendizado, que, mesmo não ocorrendo apenas na escola, também dizem respeito a ela, pois facilitam a aquisição de conhecimentos acadêmicos, do momento que crianças mais seguras pensam com mais clareza e, assim, se dedicam melhor à aprendizagem formal.
Deixar os filhos vivenciarem seus lutos dentro dos limites que podem suportar, dando-lhes apoio emocional e acolhimento, é o melhor que se pode fazer diante de dois momentos inevitáveis da vida: aprender a optar e a perder. É dessa forma que os pais podem, realmente, auxiliar seus filhos a superar e enfrentar novos desafios: oferecendo apoio afetivo, mas tratando do assunto como uma forma natural de prática para a vida.
Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

Fonte: Revista Psique

Você diz que sabe o que não sabe - e acredita no que diz

Você diz que sabe o que não sabe - e acredita nisso
93% dos autoproclamados "entendidos no assunto" afirmaram saber tudo sobre ao menos um dos conceitos fictícios
A falta de modéstia pode atingir níveis que beiram o absurdo.
Pessoas que acreditam demais nos seus próprios conhecimentos - que acham que sabem algo sobre um determinado assunto - podem chegar a ponto de alegar que possuem um conhecimento que é impossível que tenham.
Stav Atir e seus colegas da Universidade de Cornell (EUA) chamam o efeito de "excesso de pretensão", ou "sobrealegação" sobre os próprios conhecimentos.
"Sobrealegar é reivindicar familiaridade com, ou conhecimento de, algo que não existe," explica Atir, que realizou o estudo com seus colegas David Dunning e Emily Rosenzweig.
Você também é assim
E não vá logo pensando que essa modéstia às avessas seja um comportamento neurótico ou raro - ele foi identificado em mais de 90% dos voluntários, todos mentalmente saudáveis.
"Praticamente todo o mundo está de alguma forma vulnerável à sobrealegação, mas as pessoas são mais vulneráveis nas áreas da vida nas quais elas se acham especialistas," esclarece Atir.
Nas duas primeiras partes do estudo, os pesquisadores mostraram que a percepção de um autoconhecimento financeiro prevê alegações da compreensão de conceitos financeiros falsos e inexistentes.
Frente a 15 termos ou conceitos com nomes aparentemente típicos do jargão da economia e das finanças, 93% dos autoproclamados "entendidos no assunto" afirmaram saber tudo sobre ao menos um dos conceitos fictícios.
Honesto, mas pretensioso
Em outra parte do estudo, mesmo sendo alertados sobre a inclusão de conceitos fictícios, os participantes ainda exageraram em suas alegações, alegando terem conhecimentos sobre coisas que não existiam - os conceitos fictícios foram inventados pelos pesquisadores.
Além dos especialistas em mercado financeiro, o estudo confirmou o comportamento de sobralegação de conhecimentos entre especialistas em geografia e biologia - todos os grupos mostrando incidência do comportamento acima dos 90%.
"A vida dá muitas oportunidades para que as pessoas aleguem uma capacitação (expertise) que não têm. Nós observamos que avisar as pessoas que alguns conceitos são fictícios não elimina a sobrealegação, o que sugere que suas alegações incorretas são honestas," concluiu o professor Dunning.
Fonte: Diário da Saúde

Lacan pensava a Psicanálise como uma experiência dialética

O psicanalista Christian Dunker estuda a relação do ser humano com os muros, não somente no sentido de separação e delimitação de espaço, mas no que se refere às formas de vida cercadas e os sofrimentos causados, como ressentimento social, esvaziamento de si e artificialidade de relacionamentos

Foto: Divulgação/ShutterstockUma abordagem original a respeito do mal-estar, sofrimento e o sintoma na sociedade brasileira, unindo teoria social e Psicanálise, e concluindo que a privatização do espaço público transforma a própria vida em formas de condomínio, com regulamentos, síndicos, gestores e muros. Estes são os temas centrais do livro mais recente de Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (US P), que recebeu o título Mal-estar, Sofrimento e Sintoma: a Psicopatologia do Brasil entre Muros (Editora Boitempo).

Ele acredita que os sonhos de se morar em um condomínio fechado produzem monstros. Com suas estratégias de nomeação e controle de todo tipo de mal-estar, o "novo espírito do capitalismo" impede as pessoas de reconhecer a aspiração de liberdade presente em toda a formação de sintoma. Fazendo um paralelo com a vida em forma de condomínio, o psicanalista apresenta um novo sintoma social brasileiro, que sofre do mal que pretende erradicar.

Ligado à tradição lacaniana, Dunker é formado pela Universidade de São Paulo, onde obteve seus títulos de graduação, mestrado e doutorado. Possui, também, pós-doutorado pela Manchester Metropolitan University. Coordena, em conjunto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr., o Laboratório de Estudos em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise. Em 2012, recebeu o prêmio literário Jabuti de melhor livro na categoria Psicologia e Psicanálise, pela publicação ampliada de sua tese de livre docência, Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica.

No livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma: a Psicopatologia do Brasil entre Muros você fala em privatização do espaço público, a partir de reflexões sobre a Psicanálise da vida em condomínios. Pode aprofundar o tema?

Christian Dunker: O Brasil não teve feitorias, como na colonização portuguesa na costa da África, mas capitanias hereditárias. Nelas se formam os primeiros fortes, cuja estrutura essencialmente é de defesa e ocupação e não de comércio e distribuição. Isso parece ter marcado nossa relação com os muros. Muros de defesa, enclaves de autossegregação. Não apenas de separação e delimitação de espaço. No livro, estudo particularmente o Brasil pós-inflacionário e o desenvolvimento de formas de vida ligadas ao condomínio, pensado como uma estrutura. Ou seja, uma vida cercada por muros, baseada em uma legislação própria, regida pela separação estrita entre moradores e funcionários, que representou nosso grande sonho brasileiro de consumo e nosso grande signo de ascensão social. A ideia é estudar essa formação como um sintoma, no sentido psicanalítico do termo. Não apenas a expansão dos sintomas propriamente ditos, associados com essa forma de vida, mas os tipos específicos de sofrimento (ressentimento social, esvaziamento de si, artificialidade de relações) e o tipo de negação do mal-estar que se pode localizar nessa forma de vida. Portanto, não estou falando apenas deste ou daquele condomínio, mas de uma estrutura que admite três covariâncias fundamentais: a prisão, a favela e o shopping center.

Se todo conflito fica reduzido à oposição entre o que podemos ou não podemos fazer, se em vez da palavra fluente só restam contratos e instituições (que funcionam como muros), nos restarão o medo como afeto político e a violência como fantasia de nosso laço com o outro

Diagnosticar os problemas atuais, segundo você, é definir um pequeno estado de sítio, uma anomalia, uma desordem, que deve ser objeto de ações clínica e biopolítica. O que são essas ações?

Dunker: Temos dois processos cruzados no capitalismo brazilianizado (com "z" de zebra mesmo). Por um lado, há a expansão da racionalidade diagnóstica, de tal forma que para se inscrever como cidadão e ser atendido por políticas públicas você deve ser "diagnosticado", às vezes por autodeclaração, às vezes por critério de inclusão ou de exclusão, vemos que as políticas públicas aprenderam a administrar a anomia, injetando o que se pode chamar de atitude cínico-judicialista. Ou seja, não estamos mais preocupados com saúde, mas com a produção de números de diabéticos atendidos, ou de cirurgias realizadas, ou de hospitais construídos, na forma de lei. Você pode dizer, mas hospitais e cirurgias são meios pelos quais a saúde se exerce e se realiza. Digo que sim, desde sempre foi assim. Mas se você olhar de perto, desde que implantamos o nosso neoliberalismo à brasileira, desde que o "negócio" da gestão de cirurgias é posto na ponta do lápis, quando ele se separa das pessoas que fazem saúde e é posto nas mãos de pessoas que trabalham na distribuição de repasses de verbas públicas, gerenciamento de compra e venda de material cirúrgico ou números atuariais, a saúde se torna gerida como um condomínio. Talvez essa forma seja pior ou melhor do que a anterior, mas o fato é que a partir de então temos que sofrer de outra maneira, temos que sofrer como "usuários" e não mais como "pacientes". E isso você pode reaplicar para a educação, para o terceiro setor, para a assistência social e assim por diante. A segunda linha de força desse estado de sítio generalizado é que Freud chamaria de sintoma secundário ou seja, o sintoma que aparece porque o primeiro não consegue elaborar simbolicamente o conflito e portanto reaparece em uma nova formação de angústia. São as justamente chamadas "muralhas" fóbicas, ou seja, não apenas o medo de cavalos, mas a evitação ou o impedimento de ir à rua, porque lá encontramos cavalos. No Brasil o equivalente disso é a nossa hipernomeação do mal-estar como violência. Claro, se todo conflito fica reduzido à oposição entre o que podemos ou não podemos fazer, se em vez da palavra fluente só restam contratos e instituições (que funcionam como muros), nos restarão o medo como afeto político e a violência como fantasia de nosso laço com o outro.

Na apresentação da obra, afirma-se que o formato dos condomínios, nos dias de hoje, com regulamentos, síndicos, gestores e muros, representa um novo sintoma social brasileiro, que sofre do mal que pretende erradicar. Defina esses sintomas e qual é o mal a que se refere?

Dunker: De modo sintético, nos mudamos para um condomínio para poder ficar mais próximos da natureza, mas aí enfrentamos congestionamentos brutais na entrada de São Paulo, onde a nossa vida natural transforma-se em uma vida nessa casa móvel que é o carro. Nos mudamos para um condomínio para termos profissionalização dos serviços e consequentemente aumento de sua funcionalidade, e o que se obtém são dificuldades com a substituição impessoal de funcionários, extensão de processos administrativos e as mesmas "facilidades" que uma central de call center ou um Serviço de Atendimento ao Consumidor de uma grande companhia de telefonia ou de televisão a cabo. Nos mudamos para um condomínio para termos segurança e proteção 24 horas por dia e o que encontramos é a irrupção de novas formas de violência e intolerância entre condôminos e o aumento exponencial da preocupação imaginária com violência. Nos mudamos para um condomínio com a expectativa de que neste "neo-mundo" poderemos ser, de novo, senhores em nossa própria morada, e o que acontece é que nos sentimos subalternos de um síndico e seu regulamento sádico.

Foto: Divulgação/Shutterstock
Dunker aborda o desenvolvimento de formas de vida ligadas ao condomínio, pensado como uma estrutura: "A ideia é estudar essa formação como um sintoma, no sentido psicanalítico do termo"

Qual o papel do capitalismo nesse processo de controle?

Dunker: O capitalismo não se apresenta mais na figura voraz de um grande Leviatã controlador de vidas e almas em uma grande linha de montagem. Ele descobriu que poderia nos fazer nossos próprios controladores, e depois disso nos faz sonhar com uma coisa diferente de mais dinheiro, fama e sucesso. Ele nos convida a coisas bem mais intricadas e difíceis de controlar, como a felicidade e a qualidade de experiências. Pergunte-se afinal o que vem a ser uma vida plenamente realizada, à altura de nossa época. As respostas e os modelos são incrivelmente pobres. E isso nós sabemos. Mesmo que queiramos brincar de não saber, mesmo que queiramos adiar o problema, dizendo, por exemplo, que enquanto não sei o que quero vou trabalhando e ganhando dinheiro, quando conseguir de repente, como que num passe de mágica, daí eu saberei. Como se a posse dos meios me garantisse saber quais sãos os fins envolvidos. Não dá certo. Esta conta não fecha, e o que sobra são vidas que se percebem coarruinadas, cronicamente inviáveis ou meramente fracassadas.

Podemos dizer que essa realidade tem como uma de suas consequências a violência nos espaços públicos?

Dunker: Agora você convocou o nome do antídoto à nossa vida em forma de condomínio: o espaço público. Nossos modelos políticos ainda são prisioneiros de uma imagem de espaço público como a polis grega ou a civitas latina. A vida digital ainda não se fez apresentar como potente no espaço público. Seria preciso abordar isso com mais humildade. Pertenço a uma geração que fez seu mestrado em uma máquina de escrever e que viu a internet realmente funcionar com mais de 30 anos. Isso é uma nova forma de vida. O impacto disso não será percebido pelos que estão no "meio da onda" e nós, mesmo depois de toneladas de especulação, não sabemos onde isso vai dar, ou seja, onde isso vai se estabilizar. Ora, quando o espaço público é sentido, ele mesmo como indeterminado, isso cria um campo fértil para discursos regressivos. Discursos que querem substituir a indeterminação pela reedição de uma determinação prévia. Isso é o solo fértil para a unificação de todas as formas de violência em uma espécie de "grande mal" (em nome do qual o verdadeiro mal será realizado, é claro).

Nos mudamos para um condomínio para termos segurança 24 horas por dia e o que encontramos é a irrupção de novas formas de violência entre condôminos. Criamos a expectativa de que poderemos ser senhores em nossa própria morada, e o que acontece é que nos sentimos subalternos de um síndico e seu regulamento sádico

Em sua visão, qual a função da Psicanálise hoje, numa época em que não há privacidade, onde todos estão expostos totalmente, principalmente, por meio das redes sociais?

Dunker: A Psicanálise é tão múltipla quanto as formas de sofrimento que a tornam possível. Nossa oposição simples entre vida privada e vida pública deve ser suplementada por modalizações, níveis intermediários e espaços definidos por outras métricas. No fundo a Psicanálise está em boa posição, porque ela nunca se adaptou muito bem a essa distinção. O inconsciente é público ou privado? A pulsão é pública ou privada? Não funciona. Nem mesmo a redução boba da Psicanálise ao consultório privado, enquanto prática laboral liberal, funciona mais.

Para Lacan, Marx inventou o sintoma, ou seja, ele usou o método dialético para mostrar como aquilo que é negado por uma determinada forma de vida reaparece, de maneira modificada e ainda que não reconhecida em seus sintomas

Muitos dizem que o marxismo está fora de moda. Em sua opinião, quais os limites da relação entre dialética e Psicanálise, uma vez que são duas maneiras de pensar que têm personagens em comum, como Lacan?

ShutterstockDunker: Sim, o marxismo está fora de moda. Ainda bem. Agora podemos pensá-lo como uma teoria séria que tem pressupostos diferentes da teoria liberal convencional. E podemos fazer isso sem o risco de imediatamente estarmos defendendo Cuba, os Gulags russos e todas essas formas de opressão que historicamente se apoiaram nas ideias de Marx para fazer uma espécie de ideologia de Estado. Marx não inventou a dialética, cuja forma moderna foi dada por Hegel, este sim um autor muito importante para Lacan. Para Lacan, Marx inventou o sintoma, ou seja, ele usou o método dialético para mostrar como aquilo que é negado por uma determinada forma de vida reaparece, de maneira modificada e ainda que não reconhecida em seus sintomas. Marx inventou o sintoma ao mostrar que ele depende de uma estrutura e de uma dialética. O que tentei arriscar em meu livro é dizer que Hegel inventou o diagnóstico. Não o diagnóstico clínico, apesar dele ter sido um grande leitor de Pinel, esse criador do alienismo. Hegel era um mestre da arte diagnóstica, porque seu método dialético exige que pratiquemos duas atitudes opostas. Primeiro é preciso ver as coisas exatamente como elas nos parecem, sem antecipações e preconceitos, ou melhor, incluindo radicalmente esses fatores no próprio objeto que eu estou percebendo, na sua fenomenologia. Em seguida, é preciso perguntar: o que é preciso negar para que o mundo se me apresente exatamente como estou vendo ele agora? Ora, se tem que ficar de fora para que as coisas adquiram essa aparência de unidade, coerência e consistência. A primeira atitude nos faz entender que tipo de estrutura de ficção está em jogo em uma determinada forma de sofrimento; a segunda atitude nos faz indagar qual é o real que está excluído nessa forma de vida. O que chamamos de realidade, a qual estamos sempre mais adaptados e conformes do que imaginamos, é esta combinação entre uma verdade, enunciada desde uma perspectiva, e o real, que é a negação de todas as perspectivas.
Como Lacan lidava com a dialética? É verdade que ele considerava que a própria Psicanálise é uma dialética?

Dunker: Do início ao f im de seu ensino, Lacan pensava a Psicanálise como uma experiência dialética. Não é invenção ou interpretação, basta ir aos textos. Mostrar que há um sujeito em jogo na Psicanálise e que esta é uma experiência dialética é o programa teórico e clínico que traz Lacan da Psiquiatria para a Psicanálise. Há consenso dos comentadores sobre isso. O que muda é seu próprio entendimento de dialética, que às vezes se aproxima muito do que alguns pensadores, como Adorno e Horckheimer, chamam de dialética negativa.
Por que diz que a relação entre dialética e Psicanálise ainda não foi explorada em toda sua extensão e implicações?

Dunker: Ocorre que isso torna as coisas mais complicadas, cria muitos pressupostos, sugere compromissos e, inclusive, leva Lacan a certos impasses que são os da tradição hegeliana. Por isso, é comum encontrarmos uma atitude típica de "condomínio" no interior da própria Psicanálise, dizendo que Hegel foi um pecado lacaniano de juventude, que o próprio Freud foi um acidente na trajetória de Lacan, que há uma primeira clínica e depois uma segunda, "pós-hegeliana", sem outro, monológica e assim por diante. Maneiras de inventar uma novidade ausente e de territorializar o caráter universalista do pensamento de Lacan.
As ideias lacanianas, de alguma forma, ajudam a entender a ideologia nos tempos de hoje, principalmente em função da ligação entre ideologia e a produção dos desejos?

Dunker: Sim. Pensadores como Zizek, Badiou, Laclau, Parker e entre nós Vladimir Safatle têm mostrado exatamente como a Psicanálise pode nos ajudar a entender articulações ideológicas da produção de desejos. Mas aqui há uma ressalva importante. Para fazer isso é preciso deixar o terreno no qual a clínica é soberana, e onde devemos satisfações éticas e epistemológicas à nossa longa tradição de cuidado de pacientes, e pensar que a Psicanálise torna-se apenas uma voz entre outras, junto com teorias críticas de todo tipo, junto com estruturalismos e pós- -estruturalismos, junto com marxistas e dialéticos, junto com feministas e teóricos da cultura ou da complexidade, junto com o que se faz de mais avançado em termos de teoria do cinema e de crítica da cultura, junto com todas as demais formas de pensamento que eu colocaria e definiria simplesmente como o pensamento da indignação. Indignação com os princípios de conformidade, adequação, produção e identidade que dão as cartas, hoje, na organização do mundo.

Lá fora eu percebi como a Psicanálise brasileira era alguma coisa. Como o duro que dávamos para achar os textos, para atender pacientes, para estar nas instituições, para nos digladiarmos nas universidades ou na mídia só podia significar uma coisa: estamos vivos. Já se disse que o Brasil produz pouca ciência e muita consciência

Durante seu pós-doutorado na Inglaterra, você teve contato com pessoas de vários países. A partir daí, o que mudou no seu entendimento do lugar social da Psicanálise e quais as diferenças da Psicanálise no Brasil em relação aos conceitos e práticas de outros lugares?

Dunker: De certa forma, esse novo livro foi gerado como consequência dessa experiência. Lá fora eu percebi como a Psicanálise brasileira era alguma coisa. Como o duro que dávamos por aqui para achar os textos, para atender pacientes, para estar nas instituições, para nos digladiarmos nas universidades ou na mídia só podia significar uma coisa: estamos vivos. Já se disse que o Brasil produz pouca ciência e muita consciência. E isso serviria para interpretar o fato de que há, proporcionalmente, muitas pessoas em ciências humanas e poucas nas ciências exatas. Aqui vem sempre o eco da Coreia ou do Japão, onde as engenharias dão o tom da conversa. Talvez isso possa se ligar ao incrível experimento de diferença social, opressão e inequidade que é o Brasil. Claro, isso pode ser lido como um déficit em relação a certo ideal de desenvolvimento, e é verdade. Mas minha perspectiva viu algo um pouco diferente. Entendi que por meio dessa trajetória nos tornamos um país cuja forma de vida é a crise, cuja precariedade sempre nos colocou em íntima relação com a contradição, cujo destino oscila entre o cronicamente inviável e a glorificação ufanista. Ora, sempre digo que a pujança da Psicanálise no Brasil não se deve ao fato de sermos banhados pelo rio Aqueronte (onde Freud disse que ia se dirigir para escrever a Interpretação dos Sonhos), mas pelo fato de que temos, comparativamente, muitos psicanalistas, temos uma cultura muito psicologizada, e isso se deve aos piores e melhores motivos, como tento mostrar em meu livro.
Em outros trabalhos, você abordou a questão prática da atuação clínica. Em sua avaliação, quais são as relações entre clínica, cura e Psicoterapia? Aliás, como se pode entender a noção de cura na Psicanálise?

Dunker: Esse é o problema central de meu livro anterior, Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica. De fato, se há uma ligação entre os dois livros ela remonta ao fato de que quando Freud começou a sua pesquisa sobre o inconsciente, ele partiu muito precisamente de um método, o método clínico, no qual ele se formou ao dissecar enguias e também ao estudar com Charcot, em Paris. O método clínico é uma disciplina, que emerge no interior da Medicina, em fins do século XVIII . O que não está claro é que ele não tem, em si, nenhuma pretensão intrínseca de cura. Ele é o que Freud chama, na própria definição da Psicanálise, de um "método de investigação". A problemática do sofrimento chega a Freud por outras vias. Vem dos práticos, dos terapeutas, dos aconselhadores de almas, dos retóricos e de todos estes que se especializaram durante séculos na cura pela palavra. Mas ocorre que aqui mudamos de novo a chave. O que os psicoterapeutas, no sentido antigo da palavra, têm em comum são as suas técnicas de transformação, seus efeitos de influência, seus manejos espontâneos da transferência, para o bem e para o mal. A cura é outra coisa. A cura é o campo, no qual o método de análise dos sintomas e a técnica de transformação do sofrimento pela palavra se cruzam em uma extensa área de reflexão e de prática ética. A cura é o que faz a noção de verdade em Psicanálise ter algum sentido, é o que faz Lacan dizer que a Psicanálise tem uma ética trágica, é o que fez Freud reconhecer os limites de sua ambição terapêutica diante de algo muito maior, que seu método não podia enfrentar com tantas pretensões. Algo que ele chamou de mal- -estar (Unbehagen). O que caracteriza o mal-estar é que ele não tem cura, ele é uma certa posição trágica no mundo, do qual não podemos sair e no qual estamos todos comum-pertencendo. É a angústia existencial, como a afirmou Kierkegaard, é o ser para a morte de Heidegger, é a náusea de Sartre, é o real que não cessa de não se inscrever, em Lacan. Hipócrates, ao fundar a Medicina, estabeleceu uma regra de ouro: curar o que pode ser curado, reduzir o sofrimento que pode ser reduzido e jamais tentar curar o que não pode ser curado. Esse incurável é o que está em jogo no mal-estar, e que nós, como profissão impossível, tentamos curar (não no sentido de eliminar, mas no sentido de destinar). Portanto: curar o mal-estar, mitigar o sofrimento e tratar o sintoma, eis as três dimensões que constituem a práxis da Psicanálise.
Qual a diferença entre clínica na Psicanálise e clínica na Psiquiatria?

Dunker: É uma diferença que está se avolumando rapidamente e que começou a fazer água logo após a Segunda Guerra Mundial. E está se avolumando desde que a Psiquiatria está deixando de ser uma clínica da palavra e passando a ser uma técnica de controle de sensações e redução de desprazer. Como química do conforto subjetivo, a Psiquiatria contemporânea está mais para uma tecnociência do que para uma clínica propriamente dita, ou seja, certa relação unificada da experiência do sofrimento, concernida à relação entre diagnóstica, semiologia, etiologia e terapêutica. Curiosamente esse afastamento está fazendo "bem para a relação". Como um casal que esteve junto durante um longo e penoso casamento, e que decide se separar, faz a partilha e começa a reconsiderar os méritos respectivos, a partir da realidade básica de que "somos muito diferentes". Claro que o ciúme dos filhos ainda perdurará por muito tempo, mas hoje estamos em uma divisão de tarefas mais clara: uns falam, outros prescrevem. Se a queixa se estende muito e tende a ficar complicada, saindo dos sintomas mais simples, enviamos ou para um educador ou para um psicanalista. Mas aqui, falando de um dos lados do conflito, posso provocar um pouco ao dizer que nós ainda fazemos clínica, os novos psiquiatras se esqueceram de como isso funciona.


A Psicanálise é tão múltipla quanto as formas de sofrimento que a tornam possível. Nossa oposição simples entre vida privada e vida pública deve ser suplementada por níveis intermediários e espaços definidos por outras métricas. No fundo a Psicanálise está em boa posição, porque ela nunca se adaptou muito bem a essa distinção

O sofrimento está mais ligado a causas físicas ou à perda da experiência de liberdade?

Dunker: Diria que o sofrimento é uma experiência moral. Mas posso usar o tema da dor ou do adoecimento orgânico para explicá-lo. Quando temos um ente querido que fica doente, ele imediatamente começa a sofrer, e seu sofrimento está, geralmente, ligado aos efeitos da sua condição. "Condição" quer dizer limite, cerceamento ou redução de potência. Estas limitações, como, por exemplo, não poder andar, não poder comer, não poder sair do hospital, ou inversamente condições compulsórias como ter que ficar na cama, ter que tomar remédios, ter que esperar resultados de exames, constituem a gramática de nosso sofrimento. Por isso, ele tem a ver com a interpretação da perda de liberdade. Aliás, os filósofos antigos, como Etiénne de la Boetie, abordavam assim o problema da liberdade: ela só se torna um problema quando se a perde. Mas há uma segunda diferença. Quando alguém fica doente é só aquele alguém que está tomado por um mau funcionamento de seu corpo. Mesmo que seja uma doença contagiosa, ela se individualizará como experiência em cada um dos doentes. O sofrimento é transitivista. Se seu amigo está sofrendo porque está doente, você sofre com ele. Ele sofre de novo com você, porque não queria preocupá- -lo, porque não queria trazer esse inconveniente, porque o está vendo sofrer com o sofrimento dele. E assim a cadeia de sofrimento se universaliza. Todos os outros que estimam aquele que sofre sofrem um pouco com ele, e ele sofre de volta, um pouquinho mais com o próprio sofrimento e com o que isso causa ao outro. O sofrimento é esta máquina infernal de transmissão, mas também de formação de uma experiência compartilhada. Creio que é este um dos motivos pelos quais nossa cultura cultiva e cultua a posição da vítima. Ela funciona como um ponto de universalização do sofrimento, pelo reconhecimento comum entre os envolvidos.


O déficit de reconhecimento, causado pelo excesso de ordem e de adaptação, pode transformar a forma de sofrer e, em contrapartida, causar apologia à desordem exagerada?

Dunker: Sim. Uma das diferenças importantes que tento estabelecer nesse livro é a que se dá entre a simples anomia, como sentimento de que não conseguimos interpretar as leis, as expectativas sociais e os ideais, da experiência produtiva de indeterminação, que é a quantidade e a qualidade de incerteza e de angústia, sem a qual nada de novo e de interessante pode acontecer. Os sistemas mundiais de diagnóstico em psicopatologia inventaram esta ideia de disorder (transtorno) para traduzir o fato de que as doenças mentais não são de fato doenças. Disorder é fora da ordem, desordem. Vem daí a nossa ideia intuitiva de que saúde mental é ordem, organização, método, discriminação, identidade, disposição. Nada menos ideológico e nada mais falso clinicamente. A maior parte de nosso sofrimento é sentido como problemático, porque ele admite como ponto de partida indiscutível a order, a ordem. Nossa proposta, em termos de uma psicopatologia crítica, é simplesmente argumentar que existem sofrimentos baseados na disorder e outros sofrimentos cuja gramática é a order. Existem patologias da desobediência (como os agressivos passivos), mas existem patologias da obediência, da obediência exagerada, como os TDAH .


Do início ao fim de seu ensino, Lacan pensava a Psicanálise como uma experiência dialética. Não é invenção ou interpretação, basta ir aos textos. Mostrar que há um sujeito em jogo na Psicanálise e que esta é uma experiência dialética é o programa teórico e clínico que traz Lacan da Psiquiatria para a Psicanálise

As novas formas de comunicação trazem algumas consequências negativas, como, por exemplo, a solidão, que hoje virou patologia, ou seja, sinônimo de fracasso. Quem está sozinho é porque não está conectado. Esse excesso de sociabilidade pasteuriza as relações?

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O espaço público pode ser sentido como indeterminado, o que se transforma em solo fértil para a unificação das formas de violência em uma espécie de "grande mal"

Dunker: Em matéria de novidades "gozosas", e toda forma de novo laço social incluída nesta categoria, sempre há uma tendência a localizar no novo um potencial excessivo. E no antigo, aquilo mesmo que "perdemos". E isso tem um fundamento. Geralmente, os que desconhecem os perigos de algo são os primeiros a serem levados pelos riscos às tentações venenosas. Muita gente diz que essa sociabilidade digital não é uma verdadeira sociabilidade. Há certas expectativas que essa forma de vida não atende. De fato, a recusa da solidão pode ser tratada como uma ocupação, ou com o que Lacan chamou de gadget, no mesmo sentido em que a depressão pode ser tratada, selvagemente, com pinga (o que não significa que essa seja uma péssima ideia). Mas enquanto ignoramos que as pessoas inventam remédios para seus próprios males e que essas invenções são parte inarredável de uma forma de sofrimento estaremos sonhando com intervenções que ignoram o real em jogo, substituindo-o por um metodologismo condominial qualquer. A solidão é uma experiência muito importante, uma espécie de remédio natural para muitas coisas. Pergunte para uma mulher que deu à luz, digamos, há três ou quatro meses, e preste atenção como o seu sonho de consumo mudou abruptamente para: 5 minutos "para mim". Não estamos mais na Macondo de Gabriel García Márquez, e seus Cem Anos de Solidão, mas nos incrivelmente cobiçados 5 Minutos de Solidão. Por outro lado, o que você chama de pasteurização das relações é um curto- -circuito fechado de demandas e de circulação de direitos, deveres e expectativas, que facilmente transformam um casamento ou uma paixão em um empreendimento de administração e gestão de um condomínio (com eventuais disputas para ver quem é o síndico). Pode ter parquinho, área de segurança e todos os funcionários em ordem... mas vai terminar mal. Vai terminar no mal-estar.

Fonte: Revista Psique

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Psicopatologia: Um desafio à mesa

Anorexia e bulimia são algumas das principais patologias causadas pelos chamados transtornos alimentares, que exigem tratamentos multidisciplinares, reunindo abordagens de Medicina, Psicologia e Psicanálise

ShutterstockAs alterações relacionadas à alimentação se consolidam como um significativo problema, que pode ocorrer em consequência de fatores metabólicos ou psíquicos. Essas disfunções ganham, cada vez mais, relevância na mídia, em função do crescente número de casos de adolescentes que convivem com sérios problemas de saúde, inclusive com registros de mortes. No entanto, os distúrbios podem alcançar outras faixas etárias, transformando-se em um grande desafio para os profissionais de saúde.

Desde há muito venho me interessando pelas diversas patologias que compõem os assim denominados transtornos alimentares. Tanto a condução do tratamento como o seu prognóstico encontram-se em terreno bastante reservado. Sabemos que essas graves patologias possuem um percurso histórico dentro das mais variadas áreas, como Medicina, Psicologia e Psicanálise, entre outras. Assim sendo, pretendemos, sem nos estender demais, fazer uma breve retrospectiva histórica, abarcando as principais visões teóricas a respeito.

Os primeiros estudos parecem datar de 1689, com Richard Morton, o qual publica, em latim, um trabalho intitulado Tisiologia sobre a doença da consunção, situando os seus sintomas mais relevantes, segundo ele: perda do apetite; amenorreia; emagrecimento importante. Para esse autor, as causas deveriam ser buscadas no sistema nervoso. Em 1789, Naudeau, na França, descreveria "uma doença nervosa acompanhada de uma repulsa extraordinária pelos alimentos". Mas, na verdade, é em Pinel, no início do século XIX, que encontraremos uma verdadeira reflexão sobre a conduta alimentar e suas idiossincrasias. Segundo ele, tratava-se de uma "neurose das funções nutritivas", realizando uma referência direta à anorexia e à bulimia.

Um estudo mais amplo das patologias da conduta alimentar revelou uma ligação da anorexia com a bulimia, como dois tempos alternantes de uma mesma patologia

Vale salientar, como item importantíssimo, que, quando nos referimos a patologias alimentares, devemos necessariamente levar em consideração as dimensões social e cultural onde elas ocorrem: a obra, o autor e a sua época.

A título apenas de exemplo, conta-se que no antigo Japão o costume era jejuar, por vezes até a morte, contra o inimigo, no intuito de desonrá-lo.

Um nome extremamente relevante em relação às patologias alimentares é o de Lasègue, na França, o qual inicialmente situa a anorexia no campo da histeria. Obviamente, ao longo da História, sempre houve anoréxicas, mas pode-se dizer que elas só obtiveram relevância pública por intermédio dos trabalhos de Lasègue, os quais foram verdadeiramente um evento no campo da Medicina. Na conduta anoréxica, assistiríamos um prazer ou um gozo como força fundamental na organização psíquica. A anoréxica é toda poderosa em sua anorexia. O que nos leva a tecer algumas reflexões à luz do conceito de narcisismo:

Aquele que se pretende isento de necessidades fisiológicas como todos os mortais, seguramente está pautado, entre outras, na fantasia de ser Deus;

- Na relação existente com a mãe, não se trataria aqui de uma mãe fálica, onde a anoréxica, para existir, teria que capitular do próprio desejo?;
- Como estudiosos da teoria psicanalítica, entendemos que o falo nada conta e sim quem é o seu detentor;
Sabemos também que, além do corpo real, existe o corpo erógeno, detentor das zonas erógenas. Prescindir de qualquer erotização em relação à presença de outro mantém a anoréxica numa posição autoerótica;
- O problema, quanto ao prognóstico em análise, deve-se, em termos kleinianos, à dificuldade de internalização do analista, como um objeto bom, o qual fantasmaticamente também deverá ser excretado num movimento bulímico posterior.


Enfim, chegamos a J.-M. Charcot, o qual inaugura um método de "isolamento terapêutico", objetivando o ganho de peso. É necessário encerrar, conter, conservar no interior.
Freud, no manuscrito G, ressalta a vinculação entre a anorexia e a depressão. A doente perde o apetite alimentar, juntamente com uma perda da libido. Dessa forma, diríamos que o recalque incidiria no erotismo oral. A zona bucolabial, intensamente erotizada, através de uma inversão, transforma- se numa repulsa alimentar.

Acrescentaremos a contribuição de Jacques Lacan, segundo o qual a necessidade visa o objeto e se satisfaz com ele. A dificuldade é que essa necessidade nunca ocorre senão in abstracto, fora de sua formulação através da linguagem. "A demanda é demanda de uma presença ou mesmo de uma ausência. Antes de tudo, trata-se de uma demanda de amor." Um estudo mais amplo das patologias da conduta alimentar revelou uma ligação da anorexia com a bulimia, como dois tempos alternantes de uma mesma patologia. Por enquanto, poderíamos depreender que a bulimia é o gozo ao mesmo tempo desejado e violentamente rejeitado pela anoréxica. Atualmente, a anorexia não mais se encontra vinculada à histeria, existindo como uma problemática autônoma.

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Sigmund Freud foi o primeiro a relacionar a anorexia e a depressão, ressaltando que a doente perde o apetite e, também, a libido, investindo seu recalque no erotismo oral

Freud, no manuscrito G, ressalta a vinculação entre a anorexia e a depressão. A doente perde o apetite alimentar, juntamente com uma perda da libido. Dessa forma, diríamos que o recalque incidiria no erotismo oral. A zona bucolabial, intensamente erotizada, através de uma inversão, transforma- se numa repulsa alimentar.

Acrescentaremos a contribuição de Jacques Lacan, segundo o qual a necessidade visa o objeto e se satisfaz com ele. A dificuldade é que essa necessidade nunca ocorre senão in abstracto, fora de sua formulação através da linguagem. "A demanda é demanda de uma presença ou mesmo de uma ausência. Antes de tudo, trata-se de uma demanda de amor." Um estudo mais amplo das patologias da conduta alimentar revelou uma ligação da anorexia com a bulimia, como dois tempos alternantes de uma mesma patologia. Por enquanto, poderíamos depreender que a bulimia é o gozo ao mesmo tempo desejado e violentamente rejeitado pela anoréxica. Atualmente, a anorexia não mais se encontra vinculada à histeria, existindo como uma problemática autônoma.

Jean Paul Valabrega, em 1967, nos diz que a anorexia se situa no cruzamento entre a ordem neurótica, psicótica, psicossomática e perversa.

Destaca-se, a partir da clínica psicanalítica, no que tange à patologia referente à anorexia, uma dimensão passional da relação da anoréxica com a mãe. B. Brusset a define assim: "A mãe é ao mesmo tempo indispensável e inaceitável". "Ela representa tudo o que me causa horror e, ao mesmo tempo, não posso dispensá-la, cabe a ela responder, compreender, espero tudo dela, que ela seja Deus para mim" (Bidaud, 1998).

Como exemplo, ele cita uma paciente anoréxica referindo-se à mãe: "Ela fica me olhando, ou me ajuda, por exemplo, a esfregar as costas. Também pode tomar banho comigo. A intrusão sedutora, como um 'olho indecente', vem da ausência de limites do olhar materno, que localiza a filha no lugar de um objeto incestuoso".

Éric Bidaud, estudioso dos distúrbios da conduta alimentar, nos diz literalmente: "A anoréxica, por uma recusa obstinada da alimentação, por uma luta sem perdão contra a necessidade, afirma, desprezando a morte, a soberania de seu desejo, desafiando todos os limites, chegando a negar o seu corpo, inclusive. Fugindo de todo prazer carnal, ela aspira ao ser. Tal como uma mística, ela goza numa transgressão sempre relançada na expectativa de se perder, de se abolir como sujeito. Ela oferece ao olhar o espetáculo insuportável de um corpo descarnado, esquelético, que presentifica a morte. Ressalta o parentesco existente com exercícios espirituais da ascese e do jejum, práticas religiosas fundamentadas na exigência de purificação e do apelo ao sagrado".

Bidaud afirma que "o alimento, o corpo e a fertilidade, como elementos fundantes da feminilidade, são personagens centrais de uma guerra travada no interior das mentes

Apenas como citação, trazemos à baila a vigorexia ou transtorno dismórfico muscular. Trata-se de uma patologia psicológica que revela uma insatisfação constante com o próprio corpo, afetando principalmente homens, levando-os à prática excessiva de exercícios físicos. No que tange ao culto ao corpo assemelha-se à anorexia.

Atualmente, podemos verificar toda uma pressão das mídias em busca do corpo considerado perfeito. Importante ressaltar que isso deve ser obtido a qualquer preço. Verifica-se, como ouvi certa vez, no dizer de uma crítica de moda, que as modelos não passam de "cabides para as roupas". Sabemos que, ao longo da História, os padrões físicos e de sensualidade têm mudado de acordo com a época vigente.

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Charles Lasègue
Nascido em Paris, na França, em 1816, Charles Lasègue se formou em Psiquiatria sob a orientação de Jean-Pierre Falret. Era conhecido pela precisão de suas análises clínicas. Foi autor de De l'Anorexie Hystérique, em 1873, publicação que se mostrou um dos marcos fundamentais do conhecimento psicopatológico a respeito da anorexia mental. Também foi responsável por importantes trabalhos sobre alcoolismo.

PARA SABER MAIS
EFEITOS E CONSEQUÊNCIAS DA ANOREXIA
Uma das patologias mais relevantes relacionadas aos distúrbios de alimentação é a anorexia nervosa. Ela causa inúmeros efeitos e consequências à saúde e se torna mais prevalente e grave com o passar dos anos. Existem alguns indicadores que confirmam o diagnóstico. Entre eles estão os seguintes: há ocorrência de alterações no equilíbrio hormonal nas mulheres de todas as idades. Para as que não chegaram à menopausa, a anorexia tem a capacidade de interromper completamente o ciclo menstrual normal.

As consequências da doença são inúmeras. Muitas pessoas anoréxicas ficam estressadas com facilidade, resultado da nutrição inadequada, o que faz com que o cérebro e o restante do corpo lutem pra obter energia. E se uma pessoa estiver em jejum, o fato vai afetar sobremaneira seus níveis de energia, pois as calorias dos alimentos fornecem combustível para as células funcionarem de maneira correta.

A ansiedade também pode surgir nesses casos, pois quem sofre do problema, geralmente, pensa em evitar determinadas situações de sociabilização, como aquelas em que existam reuniões que tenham qualquer relação com comida, ou seja, jantares, casamentos, encontros em bares etc. Outras consequências no organismo são osteoporose, redução do ritmo cardíaco, baixa pressão arterial, ritmos cardíacos irregulares e insuficiência cardíaca severa. A anorexia também pode surgir em conjunto com outros problemas psiquiátricos.

Para Bidaud, anorexias e bulimias são perturbações paradoxais da alimentação que se revezam no                                          psiquismo,especialmente de jovens do sexo feminino

Éric Bidaud compreende as anorexias e bulimias como se constituindo em perturbações paradoxais da alimentação que, de modo incoerente e mórbido, se revezam no psiquismo, especialmente de jovens do sexo feminino. Os atos de comer e não comer ficam tensionados, pois os alimentos recusados, temidos e expurgados, constituem-se como objeto da paixão dessas jovens, "derivando uma relação apaixonada entre elas e o alimento" (Bidaud, 1998). No mesmo ano, Bidaud afirma que "o alimento, o corpo e a fertilidade, como elementos fundantes da feminilidade, são personagens centrais de uma guerra travada no interior de mentes de mães e filhas assustadas e perplexas diante do inominável que eclode de emoções impactantes, ambivalentes e antagônicas que permeiam esses quadros o tempo todo. Mãe e filha vivendo uma grande paixão se tornam dependentes e paradoxalmente sentem um horror a essa dependência que nutre a relação, aprisionadas em um corpo-cárcere, ambas buscando eternamente uma completude para um vazio que sentem nunca ser eficientemente preenchido, tomadas por uma sensação de constante débito, uma tristeza sem nome, uma vida que beira a morte".

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A vigorexia, conhecida como transtorno dismórfico muscular, afeta principalmente os homens, fazendo com que eles pratiquem exercícios em exagero

Dores crônicas

Penso ser interessante, aqui, realizarmos uma pequena pausa no intuito de citarmos aquelas pessoas que se queixam de dores crônicas, muitas vezes denominadas de fibromialgias. Sabemos que existem em várias instituições ligadas à saúde, departamentos específicos e voltados para a assim denominada dor crônica. Na própria Universidade de São Paulo - USP existe o núcleo APOIAR, que faz a triagem bem como o encaminhamento de pacientes oriundos da Odontologia, dentre outras especialidades, para a Psicoterapia. 

Em minha experiência como supervisor de colegas que atendem esses pacientes, posso notar claramente a dificuldade que encontram na condução do tratamento, seja psicoterápico ou mesmo psicanalítico. À guisa de ilustração, uma paciente que procura o psicoterapeuta em virtude de uma dor crônica bucomaxilar, por exemplo, tem uma extremada dificuldade de representar essa dor em termos psíquicos, ou seja, apresenta uma enorme dificuldade de psicologizar o seu sintoma. Assim, o único problema na vida dessa paciente e seu único objetivo é livrar-se dessa dor crônica que muitas vezes a acompanha por anos a fio. A dificuldade de se "despregar" do mal que lhe atinge o corpo, uma vez que trata a dor dentro de um aspecto de concretude, impossibilitando qualquer tipo de simbolização.

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É comum encontrar garotas com transtornos alimentares no universo das modelos, consideradas, com frequência, apenas "cabides para as roupas"

No caso das anoréxicas, geralmente o afeto é vivido na mãe, e a pessoa não o sente como sendo dela própria, mas como sendo da mãe

Aqui ficam explicadas as enormes dificuldades, desde Freud nos seus Estudos sobre a Histeria, em relação aos problemas referentes às dimensões corporais de seus pacientes, sobretudo nas pacientes histéricas. Num simples, mas clinicamente complexo caso atendido por Freud, ele nos conta que a paciente lhe dizia que "não fosse a dor no joelho, local da queixa, a paciente não expressava nenhuma indicação de quem sente dor, mas sim, contrariamente, desenhava-se no seu rosto uma expressão quase de prazer. Nos Estudos sobre a Histeria, o fenômeno descrito justificava-se pelo mecanismo da conversão, onde uma conflitiva psíquica encontrava caminho de descarga no corpo da paciente".

Nas patologias referentes aos transtornos alimentares, a questão do corpo é de fundamental relevância. Tratar-se-ia de conflitos de ordem psíquica, que encontram algum tipo de expressividade por intermédio do corpo. Freud, ao notar o fenômeno exposto acima, referia-se à "transformação de zonas erógenas em zonas denominadas como histerógenas".

Freud propunha pensar o fenômeno da histeria em termos da existência de "forças opostas, ou seja, do desejo inconsciente sexual e à proibição à sua concretização". Por meio de suas pesquisas, Freud empreendeu uma mudança da técnica hipnótica para a técnica da cura pela fala, a assim denominada talking cure. Esse foi inauguralmente o método da associação livre.

Cássia A. Nuevo B. Bruno, organizadora do livro Transtornos Alimentares, quando se refere à simbiose, diz que "para que o pensamento aconteça, faz-se necessária a ausência do objeto representado, a substituição do afeto pela representação. A dificuldade da mente mais regredida é exatamente esta - o distanciamento e a diferenciação entre eu-outro -, pois é daí que surge o medo do aniquilamento, da desintegração, a necessidade do não afeto e a necessidade de viver o afeto no outro.

Interioridade

No caso das anoréxicas, geralmente, o afeto é vivido na mãe, e a pessoa não o sente como sendo dela própria, mas como sendo da mãe. Contrariamente, também pode ocorrer que a mãe viva o afeto na filha quando a filha é vista como sendo a própria mãe, ou como uma parte importante de si e não como o outro, como a filha que tem uma existência própria. Nestas circunstâncias ocorre uma invasão total da interioridade da filha".

Diremos que entre a anoréxica e o alimento existe uma relação de paixão, o que, em última instância, quer dizer que o que está no centro da experiência anoréxica é a importância da tensão entre a necessidade e a insistente recusa em apaziguá-la. Continuando a nos apoiar nos estudos de Éric Bidaud, entendemos que a relação da anoréxica com o objeto alimento define um objeto ao mesmo tempo idolatrado e odiado, puro e impuro. A tensão torna ainda o objeto mais presente, sendo que o objeto alimento se torna a causa de tudo para a anoréxica, a qual se encontra presa nessa relação de paixão. Na luta ativa contra a vontade, aumentada pela privação, encontramos os dados principais de um clima de tentação, que se equipara à tentação do sujeito religioso. H. Brunch faz uma observação bastante ilustrativa: "Ela estava num terrível estado de excitação a propósito da ideia de comer que a obcecava e que aparecia sob todas as formas, todas as espécies e todos os tamanhos". Nos dizeres da paciente anoréxica, teríamos: "Às vezes escuto vozes ou sinto coisas em minha cabeça, e às vezes tenho visões estranhas e assustadoras..." As vozes pareciam estar em conflito, umas dizendo "Coma!, coma!" e as outras dizendo "Não coma!, não coma!". Quando a anoréxica cede aos seus desejos irreprimíveis de comer, o faz com vergonha e terror.

Nas patologias referentes aos transtornos alimentares, a questão do corpo é de fundamental relevância. Tratar-se-ia de conflitos de ordem psíquica

Se nos perguntarmos em termos psicanalíticos, sobretudo numa orientação teórica lacaniana, como poderíamos situar o "gozo da anoréxica"? Aqui, diremos que o abandono e o afastamento progressivo do objeto alimento fomentam um "masoquismo mortífero", o qual deverá ser entendido somente em termos de um paradoxo: a diminuição do investimento no objeto é sempre acompanhada por um "refluxo narcísico", ocasionando a exclusividade de uma preocupação consigo mesma por parte da paciente anoréxica. Fenomenologicamente, na clínica, temos a mais nítida impressão de que a anoréxica ameaça a sua própria vida, mas isso não ocorre por falta de interesse pela sua conservação, mas sim, ao contrário, porque ela só faz ocupar-se disso e se vê na total impossibilidade de estabelecer qualquer interesse por qualquer outra coisa. Dessa forma, podemos dizer que o paradoxo da anorexia encontra-se ligado a essa preocupação exclusiva com o objeto da necessidade. Daí decorre o caráter enigmático dessa patologia: "o investimento masoquista da excitação e o abandono da satisfação objetal provocam o prazer de uma dor, buscada e mantida indefinidamente".

Quando nos encontramos frente a frente com a paciente anoréxica, ela nos passa a nítida sensação de que nem os sofrimentos do corpo nem mesmo a própria morte surgem para ela como limites ou mesmo como sinais de alarme em relação à própria vida. Nessa cena, parece que se alguém está preocupado com a subsistência da paciente, este será o médico, o psicanalista, o psiquiatra etc.

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Jean-Martin Charcot

Neurologista natural de Paris, na França, Jean-Martin Charcot se tornou professor de Anatomia Patológica em 1860. Dois anos depois, fundou uma clínica, tendo como aluno Sigmund Freud. Durante seus estudos, foi o primeiro a descrever os sintomas da histeria, mal que tentou curar por intermédio da hipnose. A partir das pesquisas de Charcot, Freud passou a investigar as causas patológicas da histeria.

Caso emblemático

Tive a oportunidade de presenciar, na clínica, alguns casos de pacientes portadores de transtornos alimentares. Especificamente naquele que agora me ocorre, além da bulimia, também havia como um sintoma predominante a presença da amenorreia. Tratava-se de uma mulher de 35 anos, muito culta e bem posicionada profissionalmente. Vale salientar que na sua relação com a mãe, esta parecia se negar a perceber que a filha havia crescido, tratando-a desde sempre como a uma menininha que deveria responder as suas ordens. 

Essa paciente não menstruava há anos a fio e fazia alguns tratamentos médicos sem nenhum sucesso. Por intermédio da análise, enquanto trabalhávamos insistentemente a sua relação com a mãe, mostrando-lhe como ela mesma fazia o contraponto, aceitando se manter como a menininha da mamãe, me ocorreu dizer-lhe que para mim fazia todo o sentido a sua ausência de menstruação, já que menininhas não menstruam! Ajudando- a a crescer, com o tempo ela pôde olhar para essa mãe não mais como uma adulta e uma criança, mas sim como duas adultas, ou melhor, como duas mulheres. Uma vez mulher, ela pôde voltar a menstruar.
Desse modo, ressalto que os ditos transtornos alimentares, na verdade, são quadros psicopatológicos de cunho multifatorial e que seu tratamento jamais pode prescindir de um enfoque multidisciplinar. Diríamos que é no extremo sofrimento que poderemos notar que o indivíduo se perde, mas que, ao mesmo tempo, se encontra.


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A anoréxica sofre e por mais paradoxal que pareça tem uma relação de paixão com o alimento, criando uma tensão entre a necessidade e a negação em atendê-la

REFERÊNCIAS
BIDAUD, E. Anorexia. Tradução: Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1998. 
BRUNO, C. A. N. B. (Org.). Distúrbios Alimentares. Uma Contribuição da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2010.
FREUD, S. Estudos sobre a Histeria. In: Obras Completas, v. II. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1895b/1970.


Fonte: Revista Psique